Instituições discutem ações de Educação Ambiental em prol da conservação do peixe-boi-marinho e amazônico

Pesquisadores, especialistas e instituições que atuam em prol da conservação dos peixes-bois-marinhos e amazônicos no Brasil participaram, nos dias 21 e 22 de outubro, do Workshop de Educação Ambiental para a Conservação de Sirênios. O evento, promovido pela Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), com o apoio do Instituto Alcoa, foi realizado no Hotel Campestre de Aldeia, em Camaragibe (PE), e reuniu representantes de 20 organizações. O objetivo foi compartilhar experiências sobre o tema, potencializando estratégias integradas de Educação Ambiental (EA). Este encontro atendeu também a uma intenção expressa no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Sirênios.


Dentre as instituições presentes, estavam a Associação Amigos do Peixe-Boi (AMPA), Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), APA da Barra do Rio Mamanguape, APA Costa dos Corais, Fórum Socioambiental da Costa dos Corais, Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), Instituto Bioma Brasil, Instituto Biota de Conservação, Associação Peixe-Boi, BIOMa, ICMBio, Centro Mamíferos Aquáticos (CMA), Instituto Yandê, Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (GEMAM),  Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos (GPMAA),   Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA), Comissão Ilha Ativa (CIA) e Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha no Nordeste (CEPENE).
No primeiro dia do evento, a diretora vice-presidente da FMA, Jociery Vergara-Parente, deu boas-vindas aos participantes, falando da importância do evento e do compromisso das instituições com a conservação dos sirênios no Brasil. As consultoras Elisabete Braga e Ângela Cirilo ficaram responsáveis pela condução do Workshop. Numa dinâmica de grupo, os participantes se apresentaram, falaram um pouco do trabalho que suas instituições desenvolvem e expuseram suas expectativas com relação ao encontro. Os profissionais vieram do Amapá, Amazonas, Pará, Ceará, Piauí, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.
Durante os dois dias de evento, grupos foram formados de acordo com temas sugeridos, áreas de trabalho e atividades afins. Por meio de dinâmicas, rodas de conversa, trocas de experiências e diálogos entre as instituições, foram elaboradas sistematizações e “árvores do conhecimento”, compreendendo desafios, facilidades, ações e atividades de EA em prol da conservação das espécies e ressaltando experiências exitosas desenvolvidas pelas instituições.
“Durante a elaboração do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Sirênios, as instituições envolvidas perceberam que faltava uma compreensão conceitual maior sobre a temática da Educação Ambiental. Acredito que esse workshop veio como uma boa oportunidade para discutir o tema, para ser um espaço de  compartilhamento das experiências dessas instituições que possuem realidades diferentes  (tanto no cenário do peixe-boi-marinho quanto no do peixe-boi-amazônico), para nivelar uma compreensão e ampliar o conceito do que seria a Educação Ambiental, além de estabelecer uma maior interação entre as instituições”, enfatizou João Carlos Gomes Borges, médico veterinário e diretor-presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos.
“Acho que foi bastante produtiva essa troca de experiências entre as instituições que trabalham com sirênios no Brasil. A gente pôde aprender algumas ações exitosas executadas por essas instituições, trocamos bastante figurinhas para poder replicar essas ações nas nossas áreas de trabalho. A Educação Ambiental é fundamental quando se trabalha com a conservação de qualquer espécie, seja animal, seja de planta. Sem ela é impossível realizar a conservação de maneira efetiva”, avaliou Ana Carolina Meirelles, coordenadora do Programa de Mamíferos Marinhos da Aquasis.
O educador ambiental Rafael de Almeida veio de Alagoas para participar do workshop como representante do Fórum Socioambiental da Costa dos Corais e destacou a relevância da iniciativa. “O evento foi maravilhoso, prazeroso, tendo em vista que discutimos metodologias e a união das instituições, o que conta bastante para que o processo de Educação Ambiental seja realmente colocado em prática. Sem falar que as estratégias foram pensadas amplamente, sem ser de forma isolada, e colocando a conservação como o plano central de tudo isso”, disse o educador.
O ecólogo Jone César, diretor-executivo da AMPA, enfatizou a importância da troca de experiências entre as de instituições do Nordeste que trabalham com o peixe-boi-marinho e as do Norte do Brasil que trabalham com o peixe-boi-amazônico. 
“O que a gente vê é que muitas coisas são parecidas, muitos dos conflitos entre os animais e as populações que convivem com eles nas regiões são parecidos, mas algumas ameaças são diferentes, por exemplo: o peixe-boi-marinho sofre com a perda de habitats, que é o que o pessoal das instituições aqui no Nordeste que trabalha com a espécie está tentando combater, investindo inclusive na melhoria de vida dessas populações locais, enquanto que na Amazônia o nosso problema é outro, não é a perda de habitat, é a caça, principalmente a caça comercial”, explica Jone. 
O ecólogo conta que o peixe-boi-amazônico é considerado pelos comunitários e ribeirinhos como uma iguaria na culinária regional e que em anos onde a seca é muito intensa, os animais ficam bem mais vulneráveis à caça comercial, com exemplos de relatos que em um dia apenas um caçador mata mais de 20 animais - fato que tem sido bastante combatido pela AMPA. Vale salientar que agredir ou caçar peixes-bois-amazônicos e marinhos é considerado crime.
Para Jone César, a Educação Ambiental é o alicerce da conservação da espécie. Ele conta que há alguns anos, por perceber a importância de se trabalhar com as comunidades onde os animais vivem, a AMPA começou a desenvolver um programa de Educação Ambiental. “A gente viu que sem trabalhar com as comunidades, a gente estava perdendo espaço, perdendo a confiança deles e a gente não estava falando a mesma linguagem. No momento em que a gente começou a trabalhar a Educação Ambiental, a gente começou a mostrar a importância do peixe-boi para o habitat, a importância dos outros mamíferos aquáticos também, e começou a abordar outras questões que estavam relacionadas diretamente à qualidade de vida dos comunitários, como a questão do lixo, da qualidade da água, principalmente onde os animais vivem”, ressaltou Jone.
O ecólogo diz que a AMPA vem percebendo que, há alguns anos, tem havido uma mudança de comportamento por parte da população. Em alguns locais, há relatos que não existe mais a caça e que um dos fatores que também tem facilitando um pouco a preservação da espécie na Amazônia é que muita gente que caçava peixe-boi já está ficando mais velha. “A gente tem percebido que os jovens hoje em dia não querem mais caçar peixe-boi. Não sabemos ainda ao certo se é por causa das informações que a gente tem passado para eles ou se é por causa de alguma mudança mesmo de atitude das comunidades ribeirinhas lá na Amazônia, mas isso é algo que a gente precisa estudar mais para tentar entender essa realidade”, complementa o diretor-executivo da AMPA.

Troca de experiências
Durante o workshop, as instituições também puderam compartilhar o que estava sendo produzido em termos de material de Educação Ambiental por suas instituições e nas suas áreas de atuação. Cartilhas, cartazes, cordéis, vídeos, jogos, pelúcias, camisas, brindes, banners, fotos, folders e panfletos fizeram parte da exposição.

“Foi muito rica essa troca de experiências, aprendizados, metodologias, materiais. O workshop teve um clima muito positivo, de todo mundo estar aqui querendo construir cenários melhores para a conservação, para o envolvimento das pessoas que trabalham com Educação Ambiental. Acho que foi realmente um resultado muito interessante que a gente alcançou no coletivo e já traçando uma perspectiva de ações, conjuntas ou não, que podem ser multiplicadas nas localidades onde a gente atua e ações que possam, nos lugares onde ocorrem o peixe-boi, envolver cada vez mais pessoas”, avalia Maíra Braga, técnica de Inclusão Social e Desenvolvimento Comunitário da FMA e uma das organizadoras do evento.

Como frutos imediatos do Workshop, um grupo de e-mail com os participantes foi criado para discutir temas relacionados à EA e à conservação dos sirênios no Brasil, além do encaminhamento para a produção de um relatório oficial sobre o evento. Uma cartilha de Educação Ambiental também será produzida, com base nas discussões e temáticas trabalhadas no Workshop.













Saiba um pouco sobre os sirênios do Brasil:
  • PEIXE-BOI-MARINHO (Trichechus manatus manatus) – Mamífero aquático, da ordem Sirenia, chega a pesar 600 quilos e a medir aproximadamente 4 metros de comprimento. Alimenta-se de capim-agulha, diversas espécies de algas marinhas e folhas de mangue. Suas principais ameaças são as ações humanas como a poluição, assoreamento dos rios, perda de habitats, barcos motorizados, a caça e pesca predatória. Pode ser encontrado de Alagoas até o Amapá, de forma descontínua. A espécie ocupa atualmente o status de conservação “em perigo”.
     
  • PEIXE-BOI-AMAZÔNICO (Trichechus inunguis) – Mamífero aquático, da ordem Sirenia, chega a pesar 450 quilos e a medir aproximadamente 3 metros de comprimento. Herbívoro, alimenta-se essencialmente de plantas aquáticas e semiaquáticas. Suas principais ameaças são as ações humanas como a caça, pesca predatória, barcos motorizados, poluição, assoreamento dos rios. Pode ser encontrado em todos os rios da bacia Amazônica. Seu status de conservação é “vulnerável”.

Fotos do Workshop: Karlilian Magalhães/ Acervo FMA
Foto do peixe-boi-marinho: Luciano Candisani/Acervo FMA