Infecção ocasionadas por parasitas é tema de doutorado


Por Karlilian Magalhães
O médico veterinário e diretor presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos, João Carlos Gomes Borges, apresentou, no dia 22 de janeiro, sua tese de doutorado “Cryptosporidium spp. (Tyzzer, 1907), Giardia sp. (Leeuwenhoek, 1681) e identificação da helmintofauna em mamíferos aquáticos no Brasil”, na Universidade Federal Rural de Pernambuco. O objetivo da pesquisa foi identificar a presença das infecções ocasionadas por estes parasitas em mamíferos aquáticos no Brasil. O trabalho, avaliado por uma banca de doutores especialistas nas áreas de conservação de peixe-boi, parasitologia e epidemiologia, foi aprovado com menção honrosa.
“Por meio deste trabalho, conseguimos suprir importantes lacunas de informação inerentes às enfermidades parasitárias que acometem os mamíferos aquáticos, com a descrição de forma inédita de novos mamíferos aquáticos atuando como hospedeiros das infecções ocasionadas por Cryptosporidium e Giardia.  Podemos ter uma dimensão maior dos riscos em que diversas espécies de mamíferos aquáticos estão submetidas, assim como o quanto as populações humanas (sobretudo aquelas que utilizam de forma intrínseca os recursos hídricos das regiões estudadas) também se encontram vulneráveis” explica João Carlos. Como fruto deste projeto, seis artigos foram produzidos, o que propiciou também um incremento cientifico aos resultados do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal Tropical da UFRPE.
Durante a apresentação, o médico veterinário expôs os detalhes da pesquisa que contemplou os seis artigos. Para chegar aos resultados alcançados, foram realizadas coletas de amostras de conteúdo fecal e do trato gastrointestinal de diversas espécies de cetáceos, sirênios (peixe-boi marinho e amazônico) e mustelídeos (lontra neotropical e ariranha), nas regiões Norte (Amapá, Amazonas, Pará e Rondônia) e Nordeste (Alagoas, Bahia, Ceará, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte) do país. As amostras foram obtidas de espécimes mantidos em cativeiro e de vida livre, bem como de espécies que habitavam os recursos fluviais, costeiros e oceânicos.


Entre os resultados obtidos, destaca-se a infecção ocasionada pelo trematódeo digenético da família Opistothrematidae, espécie Pulmonicola cochleotrema, sendo a frequência da infecção de aproximadamente 7,95% (07/88) em peixes-bois marinhos. A presença de Cryptosporidium spp. foi constatada em cinco espécies, sendo estas: a Lontra longicaudis (15,28%), Pteronura brasiliensis (41,66%), Sotalia guianensis (9,67%), Trichechus inunguis (16,03%) e Trichechus manatus (13,79%).  No que concerne a ocorrência de Giardia sp., este coccídeo foi diagnosticado em um maior número de espécies, conforme pode ser constatado em L. longicaudis (9,23%), P. brasiliensis (29,16%), Kogia breviceps (100%), Kogia sima (25%), S. guianensis (9,67%), T. inunguis (3,81%) e T. manatus (10,34%).
A pesquisa relata ainda a identificação de Cryptosporidium spp. e Giardia sp. acometendo os mamíferos aquáticos, aliado à capacidade dos oocistos e cistos respectivamente destes protozoários permanecerem infectantes em condições ambientais por um longo período de tempo, como fator que amplia a possibilidade de transmissão destes agentes para outros organismos aquáticos, terrestres e até populações humanas.
Ao final da apresentação, João Carlos Gomes Borges enfatizou a importância da contribuição de colegas e de algumas instituições ambientais (a exemplo da Fundação Mamíferos Aquáticos, Instituto Mamirauá, Aquasis, AMPA, INPA) para a realização da pesquisa: “É relevante destacar o apoio de vários colegas ao longo das atividades desenvolvidas, seja contribuindo com a coleta de amostras biológicas, análises dos dados, elaboração de mapas, assim como suprindo as minhas ausências durante este período do doutorado. Sem este apoio, a realização desta pesquisa certamente estaria comprometida”.


A banca avaliadora destacou a relevância da pesquisa para os estudos brasileiros sobre o tema, a exemplo do professor Dr. José Wilton Pinheiro Júnior, do departamento de Medicina Veterinária da UFRPE e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal Tropical, das áreas de epidemiologia, patologia e diagnóstico e controle das doenças nos trópicos:  “Gostaria de parabenizar pelo trabalho, que tem de fato importância para a conservação de mamíferos aquáticos, fica evidente que este trabalho foi fruto de todo um histórico profissional de João, que é referência no Brasil em peixe-boi, em mamíferos aquáticos”. “Se todos os orientados seguirem o seu exemplo, nós seremos todos agradecidos”, complementa a professora doutora Maria Aparecida da Glória Faustino, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal Tropical da UFRPE.
Muito emocionado, o médico veterinário relembrou momentos da pesquisa em que teve que viajar por diversas regiões, as pessoas que conheceu em cada lugar por onde passou, as diferentes culturas com as quais interagiu, o aprendizado que obteve dentro e fora da universidade. Na ocasião, agradeceu ao seu professor orientador Leucio Câmara Alves, a sua família, aos colegas de laboratório, aos colegas da Fundação Mamíferos Aquáticos, aos amigos da Barra de Mamanguape (PB) – que a propósito estavam presentes na apresentação -  e a todos os que de alguma forma contribuíram para aquela conquista.